OS “FILHOS DE DEUS” DE GÊNESIS 6 ERAM ANJOS? AS TRÊS LEITURAS QUE DIVIDEM OS ESTUDIOSOS
São apenas quatro versículos, e geraram uma das maiores discussões da história da interpretação bíblica. Quem eram os “filhos de Deus” que viram as “filhas dos homens”? E quem eram os nefilins?
O texto
Gênesis 6 interrompe a narrativa que leva ao dilúvio com um relato breve e enigmático:
“Quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si aquelas que lhes agradaram. Então disse o Senhor: ‘Por causa da perversidade do homem, meu Espírito não contenderá com ele para sempre; ele só viverá cento e vinte anos’. Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos.”Gênesis 6:1-4 (NVI)
O texto não explica quem eram os filhos de Deus nem o que são os nefilins (palavra hebraica que aparece também em Números 13:33). É por isso que existem três leituras principais.
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Leitura 1: eram anjos
Essa é a leitura mais antiga que se conhece. O argumento principal é o uso da expressão hebraica “filhos de Deus” (bene ha-elohim) em outros livros, onde ela se refere a seres celestiais. Em Jó 1:6, a mesma expressão aparece e a NVI traduz por “anjos”. Também aparece em Jó 2:1 e 38:7.
Os defensores dessa leitura lembram ainda que o Novo Testamento fala de anjos que pecaram:
“E, quanto aos anjos que não conservaram suas posições de autoridade mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande Dia.”Judas 6 (NVI)
O livro extrabíblico de 1 Enoque desenvolve essa ideia em detalhes. Vale saber que 1 Enoque não faz parte do cânon protestante nem do católico (é canônico apenas na Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo), embora Judas 14-15 cite uma frase que corresponde a 1 Enoque 1:9.
Uma objeção, e as outras duas leituras
A principal objeção a essa leitura é o ensino de Jesus sobre os anjos:
“Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; mas são como os anjos no céu.”Mateus 22:30 (NVI)
Quem rejeita a leitura de anjos argumenta que Jesus afirma que os anjos não se casam. Os defensores respondem que Jesus fala dos anjos no céu e na ressurreição, e que Gênesis 6 trata de uma situação anormal e condenada.
Leitura 2: a linhagem de Sete. Os “filhos de Deus” seriam os descendentes piedosos de Sete, e as “filhas dos homens”, as mulheres da linhagem de Caim. Agostinho defendeu essa leitura na Cidade de Deus (livro 15, capítulo 23) e rejeitou a leitura dos anjos; Crisóstomo e Calvino também a defenderam. O texto, nessa leitura, trata de um problema de misturas: os que serviam a Deus passaram a escolher parceiras apenas pela aparência. Um limite dessa leitura é que a expressão “filhos de Deus” não aparece nos capítulos 4 e 5 para descrever a linhagem de Sete.
Leitura 3: governantes e reis. Alguns tradutores antigos entenderam a expressão como “filhos de governantes”. É o caso dos targuns Onkelos e Neofiti e de Símaco. Nessa leitura, trata-se de poderosos que usavam a posição para tomar para si as mulheres que quisessem, o que combina com a descrição dos nefilins como “homens famosos”.
O que o texto ensina com clareza
Quando os estudiosos divergem, o melhor é voltar ao que o próprio capítulo diz com firmeza. Há dois pontos que as três leituras compartilham.
O primeiro é que Deus avalia a conduta humana e responde a ela. O Senhor fala em “perversidade” e estabelece um limite de tempo para a situação.
O segundo é que escolher “o que agrada aos olhos” sem discernimento é o início de uma ruptura. O versículo 2 descreve uma escolha guiada só pelo que parecia bonito. Qualquer que seja a identidade dos filhos de Deus, esse é um alerta para a vida prática, especialmente para quem cria filhos: ensiná-los a discernir antes de escolher é parte de formar uma fé que se sustenta. Esse é o foco do e-book Crianças e Fé, sobre como ensinar a fé às crianças segundo a neurociência.
Importante: Este texto é um estudo que apresenta as principais leituras e seus argumentos. Igrejas e estudiosos sérios chegam a conclusões diferentes, e o convite é para você abrir a Bíblia e examinar por si mesmo.